sexta-feira, 28 de março de 2008

Almodóvar: o cineasta que não erra”. Esse era o título da crítica escrita por Ricardo Calil que li minutos antes de entrar na sessão de “Má educação”, última obra prima do diretor/roteirista/produtor. Entrei com um certo receio do que poderia encontrar afinal, acho que todo mundo sabe o que fatalmente acontece quando se espera demais de um filme: via de regra, a decepção é quase inevitável. E nada mais “animador” do que o comentário do colunista. Enfim, após uma sessão literalmente hipnótica, o que mais consigo me lembrar de externo ao filme é a maldita frase acima. O pior é que a cada cena que se passava essa idéia se fixava mais em minha mente e, após 105 minutos maravilhosamente aproveitados e minha cabeça dando voltas, saí do cinema repetindo quase que mecanicamente o quanto era infeliz por não ter dito essa frase antes dele. “Má educação” é, indiscutivelmente, um clássico Almodóvar. Um filme noir da melhor categoria, como gosta de classificar o espanhol. Tomo a liberdade de citar mais uma vez a coluna de Calil quando o mesmo afirma que, após uma década ininterrupta de grandes obras ( “A flor de meu segredo” de 1995, “Carne trêmula” de 1997, “Tudo sobre minha mãe” de 1999, “Fale com ela” de 2002 e o recente “Má educação” ), Almodóvar merece um diploma de mestre. Talvez pela escassez de competência que tem assolado o mundo do cinema nos dias de hoje, talvez pela ousadia de seus filmes e acima de tudo a sensibilidade e o respeito que ele tem para com o seu público. Seu grande trunfo é respeita-lo como pessoas pensantes e não apenas como fonte inesgotável de dinheiro. O reconhecimento não tardou: o filme foi a primeira produção espanhola a ser escolhido para abrir o festival de Cannes deste ano. Não esquecendo da enorme bilheteria que rendeu ao festival do Rio, também deste ano.O filme começa com a visita de Ignácio ( Gael Garcia Bernal ) a Enrique ( Fele Martinez ), antigo amigo de escola, com quem viveu um amor infantil. Na época em que tiveram um romance, Ignácio sofria com o amor, nada platônico, do padre Manolo ( Daniel Gimenez Cacho ) que, em um ataque de ciúmes, expulsa Enrique da escola, separando os dois meninos. Vinte anos mais tarde, Ignácio tornou-se um ator e procura Enrique, agora diretor renomado, na expectativa de conseguir um trabalho em seu novo filme. Em uma crise criativa, Enrique vê-se diante de um roteiro escrito por Ignácio, baseado na história da vida deles e resolve desenvolver o tema, dando a Ignácio um dos papéis principais.Tendo como pano de fundo a igreja católica, os bastidores do cinema e o já conhecido mundo travesti de Almodóvar ( “Tudo sobre minha mãe” é o melhor exemplo disso ), a história se desenrola abordando temas como pedofilia, homossexualismo, ética religiosa e, acima de tudo, o amor, seja ele com a pureza infantil, seja com a hipocrisia cristã (?!) ou, ainda, como esconderijo de interesses maiores.A abordagem homossexual é, durante todo o filme, um misto de grosseria com sutileza. Se, de um lado, temos cenas de sexo nada convencionais aos olhos hollywoodianos da maioria da platéia, por outro, temos a força de um amor ( na verdade dois ), que ultrapassou os anos e todos os obstáculos morais que encontrou pelo caminho. Aliás, esse Almodóvar é indiscutivelmente o mais amoral de seus filmes. Sem críticas, apenas levando em consideração o que se afirma como moral nos dias de hoje. Manolo ama Ignácio, que ama Enrique, que ama Ignácio. O triângulo amoroso se fecha da forma mais realista que podemos conceber. Vence o mais forte. Neste caso, a força veio representada pela batina católica e pelo ambiente sagrado de um colégio de padres para meninos. E Manolo vence de quase todas as formas que podemos imaginar. Através de sua pedofilia, que, por sinal, vai muito além da sua condição de padre, marcou a vida de duas crianças, principalmente a de Ignácio, que acaba por viver sua vida em função de tudo o que lhe aconteceu no passado. A ligação entre amor e tabu torna o filme irresistivelmente forte e diferente de tudo o que se vê nas telas. E é através da agressividade daquelas cenas que conseguimos repudiar, deglutir e, quem sabe, com um pouco de boa vontade, rebatê-las na cabeça para tentar entender toda a sutileza paradoxal a qual o filme se propõe.
A questão que envolve a crítica ao catolicismo tem sido extremamente abordada por críticos, que se dividem entre a aceitação e o repudio do estilo de Almodóvar. Se o filme é uma crítica a igreja? Não sei. Depende diretamente da sua forma de enxergar esse tema. A igreja pode ser apenas um pano de fundo para um caso de pedofilia “normal” que poderia acontecer a qualquer homem, seja ele de “Deus” ou não. Se você humaniza as figuras santas da Igreja Católica, dificilmente irá achar que a intenção de Almodóvar era tomar partido de uma guerra. Aliás, se você conhece um pouco do trabalho dele, verá que, possivelmente ele resolveu dar uma batina a figura de Manolo, para criticar a hipocrisia das pessoas em geral. É como um grande símile. Apenas uma forma de chocar para que o recado seja dado com exatidão. Mas ainda temos o outro lado. Para um público cristão, que aplaudiu “Paixão de Cristo”, por exemplo, o filme de Almodóvar vai soar como uma provocação direta. Dificilmente o filme atingirá esse público positivamente.A última grande referência do filme é uma verdadeira declaração de amor ao cinema. Lembrando melancolicamente “A noite americana” de Truffaut, o filme se passa ora em um set de filmagem, ora no interior de um roteiro. É um filme dentro de outro durante todo o tempo. Quem vai ao cinema não pode, em momento algum, separar as histórias da qual o filme é composto. Tentar fazê-lo é o único erro possível de ser cometido. Você não precisa entender o que Almodóvar quis dizer com isso ou aquilo. Você deve apenas olhar a tudo com o máximo de atenção e com a cabeça mais aberta possível. A sensação é sua, a resposta é exclusiva. Com interpretações absolutamente brilhantes de todo o elenco ( com uma atenção especial ao promissor Gael, que domina 4 personagens de uma forma assustadoramente natural ) e uma fotografia atenta à sensibilidade do roteiro, o filme desponta como um dos melhores do ano. E ainda, como um dos melhores do próprio Almodóvar. Meus aplausos permanecem de pé e convidam todos a um deslumbramento cinematográfico pouco visto no roteiro usual dos cinemas.

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