sexta-feira, 28 de março de 2008

Como recém leitora do original de Dostóievski “Crime e castigo”, acho que um comentário apático sobre o filme “Nina”, é a forma mais natural de resultado que poderia se concretizar em minha cabeça. Não que, no geral, o filme não seja bom. O problema que assola o longa é aquele clássico que abate todos os profissionais que tentam se basear em grandes obras: por mais que se tente, nunca se chegará aos pés da complexidade descrita nas páginas de um bom livro. Ainda mais quando o propósito do mesmo é apresentar um romance psicológico, da melhor qualidade, com todas as sinistras nuances que, entrelaçadas, compõe o enredo. A escapatória utilizada pelo roteirista de “Nina” foi apenas a de se inspirar “livremente” no livro e não se basear totalmente no mesmo. Isso de uma certa forma alivia a pressão que é fazer jus a poderosa narrativa de Dostoievski. Mas não tira do livro a responsabilidade de manter a história coesa tanto para quem leu o livro como para quem não teve esse prazer. O erro de “Nina” está aí. O filme começa com a narrativa, ao fundo, ( na voz da própria Guta Stresser – protagonista do filme ) explanando uma teoria pertencente a Raskólnikov ( protagonista de “Crime e Castigo” ), que explica, de certa forma, todo o processo que o fez cometer o crime chave da história. Nessa teoria ( criada por ele ) ele defende a existência de 2 tipos de seres humanos: Os ordinários e os extraordinários. Os primeiros estão no mundo simplesmente pela sua própria existência e a sua função é a de mover o mundo. Os segundos, estão pré-destinados a mudar o mundo e a fazer história, mesmo que para isso seja necessário que eles cometam um crime. A teoria tem profundo efeito sobre o personagem de Dostoievski, mas não parece surtir o mesmo efeito em Nina, mesmo que o início do filme dê a entender que será desta forma. Por mais que esta seja pronunciada pela personagem logo no início, o desenrolar da história não nos convence de que ela realmente se considere um desses seres extraordinários. O que nos apresentam ao longo do filme é uma menina perdida, apenas perdida, como milhares de outras que podemos encontrar por aí. O personagem de “crime e castigo” não era como qualquer um. Era uma pessoa de inteligência impar – fascinado pelos feitos de Napoleão, diga-se de passagem – que acreditava que seu crime era justo pois através dele uma pessoa como “ele” poderia cumprir o seu destino, concluindo os seus estudos e viabilizando assim, todo o seu poder sobre os outros.
No caso de Nina, percebemos uma garota de certa forma mimada, que acredita ser injustiçada pelo estilo de vida que leva. Ao que tudo indica ela era uma menina que tinha tudo o que precisava em uma cidade de interior onde vivia com os pais ( embora o rasgo na figura do pai em uma foto indique que ela provavelmente teve problemas com ele. Fato que pode ter sido o propulsor da sua saída de casa, mas tudo isso é meramente indicativo no filme ). Saída de casa, foi tentar a vida na cidade grande, no caso São Paulo, onde foi morar em um quarto alugado na casa de uma velha abismal. Logo a sensação de injustiça começa a brotar no peito da protagonista, quando a proprietária do imóvel, nada receptiva ou solidária a sua situação, começa a negar-lhe comida e abrir correspondência para roubar o dinheiro que a mãe lhe enviava. As semelhanças entre o filme e o livro se mostram em pequenos detalhes que pouco tem real semelhança entre si. O personagem do livro tb não trabalhava mas o fato é justificado pelas suas horas infinitas esticado em seu divã, mergulhado na loucura de sua teoria. Já Nina, larga seu emprego simplesmente por não agüentar a rotina de ser um ser ordinário e por querer ser diferente sem viabilizar meios para isso. Taí a grande diferença entre os dois personagens. Raskolnikov “está trabalhando” mesmo que mentalmente para atingir um objetivo de vida. Nina é levada pela vida, insatisfeita, mas não enxerga nada que possa tira-la dali. Por isso se submete ( na maioria das vezes ) as maldades da velha proprietária, á procura de alguma migalha de vida que possa lhe impulsionar. O desespero de Nina aumenta quando ela é expulsa do local onde mora ( detalhe que o filme nos mostra uma figura tão sinistra personificada na velha que chegamos a ficar com pena de Nina. Mas não podemos esquecer que qualquer pessoa que não pagar as suas contas devidamente seja despejada, por uma alma ruim ou boa, simplesmente porque a vida é assim ). Ou seja, a meu ver, o crime que Nina comete matando a velha, não tem nada a ver com uma tentativa de melhorar sua vida ou ainda com a teoria da existência de seres extraordinários que seriam passíveis desse tipo de crime. Ela o faz pura e simplesmente por desespero e raiva momentânea ao que nos passa.

Porém o que mais nos intriga no filme é o fato de, no final dele, termos uma certa dúvida da própria existência do crime em si. Os devaneios de Nina lembram um pouco os de Raskolnikov (inclusive o sonho do espancamento do cavalo foi retirado integralmente do livro), mas a tosse que ela escuta constantemente no corpo da morta ou a figura de dois “caras” perseguindo-a, torna a cena extremamente surreal. No livro, por mais que várias vezes o leitor se depare com devaneios do protagonista aparentemente inexistentes, em seguida tudo se explica e a situação adquire muito mais força. No final, Nina parece ser “absolvida” de seu crime, cuja existência deixa dúvidas, ao meu ver, proposital. Mas sua existência sombria não padece e o filme termina nos dando a mesma agonia que proporciona no início. Finalidade? Talvez nos mostrar um retrato da marginalidade moderna através da figura de Nina. Uma menina “descente”, que chegou a cidade com grandes sonhos e que se viu longe de tudo o que esperava. O detalhe da “origem” boa de Nina fica claro na cena em que ela dá todo o seu dinheiro (roubado de um cego – detalhe!!) à uma mulher na rua que ela nunca viu. Então seria isso? Essa mescla de bondade e maldade que coexiste em Nina seria a essência do ser humano moderno? O quanto uma pessoa agüenta mantendo-se efetivamente com a alma boa dentro de todas as impossibilidades da vida? Até que ponto podemos oscilar entre ser bom e maldoso? Até onde conseguimos dar a outra face para outro tapa? Qual é o limite do ser humano? Essas são perguntas que Nina tenta desvendar e que não tem nada a ver com a tentativa de “Crime e Castigo”. Na minha opinião, se retirarmos algumas cenas e diálogos (exatamente iguais) entre as duas obras, um não tem nada a ver com o outro. Sorte do filme... Quando não conseguimos nos comparar, é melhor nos mantermos em outro patamar. Sendo diferente apenas, ainda pode-se ser bom.

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