sexta-feira, 28 de março de 2008

Ele estava lá. Mais uma vez me fitando. Com aquele mesmo olhar que tanto me assustou da primeira vez que o vi. A sensação era de medo. Não da mudança de planos, não da reviravolta ou do desconhecido. Ele me olhava e me dizia tudo, parecia saber demais sobre mim. Ele sabe demais. Isso é indiscutível. E, só em pensar que passarei o resto da minha vida a mercê desta enorme vulnerabilidade, petrifiquei. Assim como hoje. Já me conformei e desisti de fingir. Ele é muito que mais que um pedaço de mim e me prova sua consciência todas as vezes que me encara. Assim como hoje. Na sala, a jovialidade me espera. E eu aqui, trancada neste quarto escuro fazendo o que faço todos os dias, incansavelmente. E, mesmo assim, não tenho vontade de sair.
Ele me fita, continua me fitando. Se expressa da forma que pode e faz valer cada ditado popular. Um olhar vale mais que mil palavras. Um gemido ecoa a potencialidade de um grito... ou de um beijo... ou de um carinho. Ouvi certa vez uma especialista dizer que criamos a linguagem mas que não necessitamos tanto dela assim. Por mais que essa afirmação tenha um sentido muito exagerado, consigo entender o porque desse raciocínio. Nunca ninguém me agradeceu como ele... mesmo sem ter a menos noção do que a palavra obrigado signifique. O sentido de cada palavra está dentro de nós e não pode ser ensinada. Apenas instruímos nossos descendentes a traduzir seus sentimentos para que fique claro, para que seja polido. Mas, por mais que falemos eu te amos e muito obrigado por aí, é impossível falhar na sua significação. Não se mente com palavras quando os sentimentos são lidos e interpretados com a alma. Não perdemos esse dom quando crescemos, mas tentamos desfaça-lo, da mesma forma que aprendemos a mentir. Nos tornamos adultos e assim, convenientes, para que seja mais suave nossa digestão. Para que sejamos seres sociáveis e culturais.
De qualquer forma, ele continua me fitando. E eu, aprendo com cada segundo de olhar e brinco de interpretar, me redescubro desvendando sua pureza, sua sutileza. As palavras têm outro sentido agora. Um novo que, infelizmente - ou felizmente -, não sou capaz de traduzir.

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