sexta-feira, 28 de março de 2008

Um sonho

Quando se deu conta seu peito explodiu. Do nada a sensação de vazio era tão grande que mal conseguia falar. Aos prantos saiu do quarto e deu com a visão de sua mãe arrumando o armário. Gritou muito. Precisava saber como ela poderia não sofrer aquela perda, justo ela, quem mais grita, quem mais sente. De repente agia friamente mediante a perda do próprio filho. Precisou contar o que tinha visto. Como um microfone em teste falhou a voz e entre um suspiro e outro contou... da tesoura... da multidão... de como havia tentado evitar e só conseguiu suspender o corpo dele do chão. Não consegui, mãe... me desculpa! Gritava muito com todo o peso da cobrança nas costas. E ela impecavelmente permanecia arrumando seu armário. Teve vontade de sacudi-la mas não pôde. Procurou algum espaço dentro daquela casa onde a dor fosse menor, correu muito e subiu as escadas buscando. Sempre buscando. Na cozinha, seu pai mexia na geladeira. O que estava acontecendo? Um colapso nervoso fez com que todos se metessem a arrumar a casa e ela se desfazendo. Soluçou e, de vagar, chegou perto. Pai... o que...? De repente viu. Lá estava ele, sentado sobre a bancada a rir. Ria de tudo e de todos. Como sempre debochava do dramalhão existencial que ela vivia. Ria leve, com a mesma arrogância de sempre, como o ar de quem controla sua vida. Quanto mais ria mais desespero brotava no peito dela. Refletidamente segurou seus braços leves e sacudiu numa tentativa desesperada de transferir sua dor para ele, de fazê-lo entender o que era aquilo tudo e pedir que ele levasse embora. Era tudo culpa dele e ele não se importava. A vida inteira foi assim. Ela o amava muito. Muito mais do que ele poderia um dia retribuir e ele nunca se importou. Debochava dela, ria de suas queixas. Contava crises e momentos, dava pequenos brechas de intimidade e ela se agarrava naquilo, na ilusão de que aquilo fazia dela uma pessoa vital. Não o era. Mas a relação unilateral sempre lhe bastara. Desde que eram pequenos. Nada daquilo existia. Apenas a dor visceral da perda. Sacudiu com toda sua força – mais uma ilusão em sua vida. Lhe disse: você não pode me deixar aqui sozinha! Quem vai entrar comigo na igreja? Sorriu e calmamente, como sempre, respondeu que nunca estivera tão bem. “Calma, cara... ta tranqüilo.. tu segura a onda”. Chorei. Chorei 2 dias consecutivos e até hoje choro a visão desta cena.
Certas perdas são difíceis de transpor.

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