quarta-feira, 10 de junho de 2009

Do que não entendo


RJ, 26 de dezembro de 2008

Foi mais um Natal onde a tradição da família me venceu e eu, sem pestanejar, recolhi minha trouxinha e me enfiei num carro durante mais de quatro horas para chegar onde não queria estar. Eu fui. É importante, todo mundo sabe que devemos cultivar nossas raízes. Eu tento. Faço de tudo o que posso para me sentir em casa naquela cidadezinha. Eu falho. Todas as vezes que me forço, por amor, por respeito, por pena. Falho, pois o sentimento que me consome é ainda maior. E posso jurar que ele piora todas as vezes que tento revertê-lo. Deve ser óbvio para quem me lê já que todo mundo também sabe que não conseguimos manipular nossos sentimentos. Mas é tão importante para as pessoas que eu amo que eu goste de lá, que, ao menos, eu tenha algum sentimento positivo, pode ser até um sentimento neutro. Mas o que me aperta por dentro nada tem a ver com imparcialidade. É irritante.

E eu tenho tanta vergonha de me sentir assim que quase não consigo escrever sobre, preferiria enterrar dentro de mim ou comentar apenas com aqueles que nenhuma relação tem com ninguém de lá. Sinto vergonha do meu preconceito e da raiva que me dá quando escuto o sotaque do caixa do supermercado. Os julgo ignorantes e desinteressantes – o que é quase uma redundância para a minha pessoa. O curioso é que costumo ter pena dos ignorantes por falta de oportunidade, mas com eles é apenas raiva mesmo. Não tem pena. Talvez a palavra não seja ignorante, então. Até as palavras me faltam, que vergonha que sinto desse relacionamento e no monstro que ele me transforma!
A questão é tão séria que chego a pensar que é carma, mesmo não acreditando nele. A religião, tão circunstancial, me toca quando estou por lá, na busca desesperada por uma resposta, qualquer motivo que justifique tanta mágoa. Tenho lá meus motivos racionais e “psico traumáticos’, mas eles simplesmente não me bastam! Onde já se viu, a minha cabeça não me bastar!?

De qualquer jeito, reafirmando meu caráter “vaselina” fui fazer o que detesto, no feriado que mais detesto (porque sou obrigada moralmente a ir para lá) só porque amo os que amam aquele local. Porque amo duas pessoas que lá se criaram e que não me despertam, nem de longe, raiva ou pena, e que não são ignorantes nem desinteressantes e que, por acaso, fazem grande parte do que sou hoje. Porque este fato não conta para meu coração quando deveria respeitar aqueles cidadãos? Porque não consigo ter uma visão macro de família sendo que a visão micro move as minhas atitudes na vida? Qual é a raiz de tanto preconceito? Experiências ruins não me parecem justificativa suficiente, pois já as tive por aqui também e, por aqui, tenho o costume bunda de sempre dar uma segunda chance e nunca julgar ninguém. Chego a ser uma pessoa soberba, como pode?!

E, para piorar, acabo de me dar conta de que este foi um dos textos mais demorados que já escrevi fato que comprova para mim – que me conheço tão bem (?!) – que a situação já é muito pior do que pensava já que tenho a convicção de que, onde minhas idéias não fluem, meu coração não se sente a vontade.

Mas por que, meu deus? Por que diabos?

3 comentários:

Litza disse...

Uma meia dúzia de sessões de análise respondem isso. Dizer que não sente, nem de longe, raiva dos pais, é meio ingênuo, né? O que Freud diria? Ok, dane-se Freud. Não é Itajubá, é o que ela (e uma parte da vida dos seus pais) representa para você. E eu tenho que te contar um segredo: adoooroo Itajubá. E cidades do interior em geral. Deve ser porque não tenho nenhuma ligação, de fato, com elas. É isso: Itajubá é muito próxima, tem muito de você para você se permitir gostar dela. É como aquela pessoa que se parece com vc e por isso vcs não se dão, O espelho pode ser algo muito incômodo. Faz algum sentido para você ou devo devolver meu diploma de psicologia de botequim?

Daniela Ricotta disse...

Bem que a minha ex-terapeuta tentou explorar isso. Ela dizia que era saudável pois Itajubá era a única lembrança que eu tinha onde manifestava raiva. Por todas as outras parece que nem foi comigo.. Mal necessário ou canalização?

Agora... Espelho?? Ai! Essa doeu muito muito.

Litza disse...

Acho que segundo Freud, chama recalque, e é super necessário! Haha, é, o processo é dolorido mesmo. Mas é claro que guardadas as devidas proporções, né?