Dani,
Lendo o texto do seu about me no blog (tinha uma pedra...), me lembrei dessa fala. É daquele programa Mothern, sabe? Sempre começa com o depoimento de alguém sobre maternidade e dessa vez foi um sociólogo, achei super lúcido. Copiei há um tempo e não sabia com quem compartilhar. Não que tenha à ver com você como mãe etc, mas serve para tudo, acho: amizade, casamento. Vê se você gosta:
"Soberania é quando você faz o que você quer, aquilo que você deseja. Isso cabe, numa família, aos adultos, que são responsáveis pelas crianças. São soberanos. Já as crianças tem autonomia. Autonomia é você fazer o que você deseja no teu âmbito de limitação e ação. O que pais e mães precisam evitar é a desterritorialização, isto é, a anulação da fronteira dos mundos. O pai e a mãe, por exemplo, que anula a si mesmo e passa a agir e viver em função do outro. Essa criança acaba crescendo sem a idéia de limite e não tendo uma noção de perda. Não sabendo que vez ou outra ela terá negado o acesso ao outro território, que ela não está ali o tempo todo apenas para ser servida, que ela não está ali apenas para ser guiada pelos seus desejos, que existe um limite entre desejo e direito. Nessa condição, um pai e uma mãe precisam estar atentos para formar um adulto saudável, e a saúde mental vem, em grande parte, pela minha capacidade de enfrentar os obstáculos que a vida coloca. Saber, como dizia Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Vez ou outra, eu tenho que afastar a pedra, mas ela existe. Quem não tem noção da pedra no caminho não tem noção de perda, de recusa, de não e aí acaba, claro, tiranizando o território do outro e invadindo. Aí não é autonomia mais, é soberania e ocupação bélica. Em família também existe."
Bjins.
Querida amiga,
Aproveito a deixa "freud" que os e-mails e comentários do dia permitiram
E te conto um segredo: Quando fazia análise, me peguei várias vezes discursando (isso mesmo, discursando) sobre meus pais, minha criação, minha família. Isso, em certo ponto, começou a me fazer incrivelmente mal. Tudo porque comecei a transferir para mim (e exclusivamente) a responsabilidade sobre todos os possíveis traumas que meu filho certamente virá a ter. Você acha que é possível racionalizar esse processo e tentar diminuir o que ainda está por vir? Ou será que este processo é natural e traumático (e, por isso, necessário) a todos os seres humanos?
Estarei eu economizando uns tostões de análise de meu pequerrucho ou é um questionamento apenas autodestrutivo incapaz de corrigir as falhas de todo e qualquer ser humano?
Quando paro para pensar, bem como agora, me sinto mais mãe, como se assim, pudesse lhe controlar até o futuro. Aí me acho completamente arrogante e tenho a certeza de que, da mesma forma que os meus pais, e os seus pais, o meu filho vai ter que aprender a superar os defeitos de fabricação de seus guias porque eu simplesmente não posso fazer mais por ele do que já faço.
É a tal pedra no meio do meu caminho.
Bjos
2 comentários:
O que você chama de racionalização acho que faz parte de um ESTAR ATENTO. A cobrança mala freudiana em cima dos pais sempre vai existir, e acho isso um tédio. Pais são sempre os melhores que eles podem ser. É aceitar isso ou dar murro em ponta de faca (ou de divã). Mas o pai que está atento às consequências de seus atos (assim como o marido, a filha, a amiga), se questionando (sem culpas e neuroses), está um passo à frente, acho. E nessa tarefa você está em dia, o blog é uma prova disso.
Controlar o futuro, nunca, mas como você disse, guiar, apontar o caminho. E se Teteu resolver ser freudiano contigo, estarei lá para dizer para ele o que digo aos amigos que crucificam as mães: Libera a tua mãe e vai cuidar da tua vida!
Beijo,
E corrige os meus erros de português aê! "Nada A ver!!", "O pai e a mãe, por exemplo, que anulaM a si mesmoS e passaM a agir e viver em função do outro." Francamente! Nem pra poupar a amiga da humilhação ortográfica virtual!!! :) Bjs!
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