terça-feira, 9 de junho de 2009

Presentes


Rio, 24 de outubro de 2008

Por vezes leio textos e relatos de escritores falando mal de casamento. Rola de tudo, desde grandes ironias a corações realmente partidos, de sarcasmo e humor negro a relatos de dor e descrença no mundo e nas pessoas. Acho que quase tudo isso Freud explica. Até o fato da geração feminista “sex and the city” que vem tomando conta das escritoras novas e fazendo com que elas, igualmente ao que os homens sempre fizeram, reneguem o casamento e se concentrem no sexo e na cidade (subentede-se de cidade: trabalho, amigos, casa, vida social, beleza e glamour). Tenho curiosidade pela nova geração de escritores e, confesso, mais ainda pelas escritoras e este modernismo popular do momento. Mas não consigo mais encontrar identidade e sinceridade nesse modernismo todo. De repente, as mulheres que se casam cedo viram seres estranhos, que vão contra tudo o que já se fez pela emancipação feminina. Os homens, claro, continuam nos adorando, as “pra casar” sempre se dão bem quando eles resolvem sossegar. Mas parece que é errado não ter tido um número razoável de parceiros sexuais antes de se decidir por apenas um. Soa retrógrado querer sair da casa dos pais para a casa do casal. Percebe-se estranho (rotineiramente) o espanto cínico dos comentários ao te verem de aliança na mão.
Eu, apesar de amar “sex and the city”, continuo acreditando no casamento. Não no modelo dos antepassados, mães, avós e tias. Mas no casamento que a nossa geração aprendeu a construir driblando a falta de grana que a gente tem quando começa a vida. Este mesmo que precisa de 4 braços e 4 pernas trabalhando dia e noite, fora e dentro de casa. O que entende uma licença maternidade que não permite nem desmamar os filhos e o que sobrevive a muito mais que a rotina: a falta de tempo.
O mais engraçado é que a vida junto a alguém é muito mais inesperada do que se pode imaginar. É fácil pensar no comodismo, na mesmice e no casamento como uma discreta prisão. Mais fácil ainda considerar o outro lado, o dos clichês: do companheirismo, da segurança. O que pouca gente fala é de como a gente precisa do outro. E isso para mim justifica a necessidade ou não que temos na vida. Não consigo conceber a vida sem o outro. Aquele bendito outro que nas aulas de psicologia da faculdade a gente aprende a escrever com “o” maiúsculo com muita propriedade, aliás. Aquele que faz a gente precisar de um vestido Gucci ou de uns óculos de intelectual. Que nos faz ir aos locais bacanas e agir assim ou assado em uma reunião ou em um bar. O casamento diminui um pouco a necessidade que a gente tem de ser alguma coisa. Porque ser alguma coisa é um troço super cansativo. E chega um hora em que a gente só quer ser o que se é mesmo. O bom do casamento é poder ser, sem vergonha. (momento aspas: tô falando DO CASAMENTO, não dos casamentos, entende?)
A gente chega em casa do trabalho cansada de ser polida e de engolir sapo, de escrever “atenciosamente” e” caros” nos e-mails e de se reportar a sua chefe como uma imbecil. Encontra a casa uma bagunça e descobre que a sua empregada não fez nada do que você pediu e ainda trocou seus móveis de lugar (tem um amigo que diz que todos os empregados domésticos queriam, na verdade, ser decoradores). Aí você briga com ela, mas de forma educada mesmo querendo mandar ela a merda 20 vezes. Quando ela vai embora você vai brincar com seus filhos de futebol mesmo com os seus pés cheios de bolhas por causa do maldito sapato bico/salto fino (a combinação do terror) que você precisa usar o dia inteiro. Depois, tem que dar a comida das crianças e tem que colocar todo mundo pra dormir mesmo quando a sua vontade é deixar eles verem desenho até as 2hs da manhã. Briga para escovar os dentes, põe na cama e, voilá! Olha para o seu marido que está tão desesperadamente cansado o quanto você de ser para os outros o dia inteiro. Você vai para o banho e ele liga o computador. Você sai do banho, de toca na cabeça, com aquele corpinho que definitivamente não foi o que ele apaixonou e reclama no ouvido dele por alguns minutos enquanto ele reclama do time de futebol que é o lanterna do campeonato. A vida não está fácil, nossa conta está negativa e precisamos fazer supermercado. Antes vocês falavam sobre livros e cinema europeu. Mas agora você pode discutir o preço da carne e a roupa ridícula que a Mariah Carey usou no show que vocês viram na tv a cabo. A diferença é que agora você não está mais fingindo. Não que você não goste de livros e de cinema europeu. Vocês gostam sim, e muito. E sentem falta da época em que tinham tempo de ver 5 em uma única semana. Mas ninguém vive disso a vida inteira. É preciso discutir o preço da carne e fazer sexo de forma tranqüila, sem pressão. Não é que você relaxe em relação ao seu corpo como as pessoas dizem. Você simplesmente não precisa mais fingir que é sarada se você não suporta academia.
Depois que a gente casa as únicas coisas que permanecem são as reais. E é isso que vai determinar a longevidade do relacionamento: a capacidade que o casal tem de ser sincero um com o outro. A gente vê tudo, do tamanho da barriga à mania irritante de não tirar o lixo quando o saco está cheio. E aceita, ou não. É preciso sim muita paciência e conhecimento do outro e claro, esta tarefa é dificílima. Mas quando se consegue não há como descrever o conforto que é ser você para a pessoa que mais te ama neste planeta.
Existem duas formas bem definidas de se entender a minha definição de casamento: para os cínicos eu sou só mais uma menina romântica que, provavelmente parou no tempo e não percebe as oportunidades da mulher emancipada. Para os românticos tudo o que penso era a justificativa final de que uma vida a dois pode valer a pena como investimento pessoal e que vai além dos filmes da Julia Roberts.
Eu, que não sou cínica nem romântica, prefiro sair pela tangente e propor uma nova análise. Sejamos racionais. Se a gente precisa ser vista, agradar, ser a mais linda, mais inteligente, mais eficaz, mais mãe, porque não diminuir a pressão das nossas vidas dando a um ser humano a honra de saber que não somos as melhores em nada. Sempre existirão pessoas mais por aí. A gente só tenta e, sem ilusões, vamos apenas continuar tentando. A pressão existe hoje muito mais do que jamais existiu entre os casais. Todo mundo tem jornada dupla de trabalho, o tempo é curto e a vontade de fazer tudo é grande. Por isso, cada dia mais, somos obrigados a tomar decisões e a seguir caminhos. Perguntar se o caminho escolhido foi o certo para alguns é a chave da humildade e da possibilidade de voltarmos atrás. Como, por experiência própria sei que certos caminhos são sem volta, procuro passar os meus dias procurando tudo o que a vida ofereceu a mim, que hoje me é vital, mas que eu nunca teria acesso se não fosse uma decisão tomada. Não estou propondo um diário de auto ajuda mas sim um trabalho mental que tento fazer nos dias em que estou mais lúcida. Nos outros, onde a tristeza sem fim me abate e me sinto cansada, tenho uma pessoa do meu lado capaz de entender que meu cansaço é da vida e que eu só preciso de um minuto, ou de um colo, ou de um presente. Às vezes parece que ele sabe mais do que eu do que realmente preciso. E isso é terrivelmente clichê, mas sei ceder aos clichês sinceros.
O que importa é que cada pessoa seja honesta com o que realmente quer. Já que queremos mesmo tudo, para sermos felizes alguma coisa vai ter que prevalecer em algum momento. Você pode ser a próxima Carrie, ou qualquer uma das outras três personagens do seriado. Mas, nada me tira da cabeça que o sucesso deste roteiro se deu na fórmula milagrosa de juntarmos 4 mulheres completamente opostas em um unidade chamada amizade. Com certeza cada mulher se identifica um pouco mais em uma do que na outra. Mas todas nós queremos ser as 4, bem ao mesmo tempo, na dosagem certa. Essa é a mulher perfeita.


(Seguindo este linha de raciocinio: Temos a Charlotte. Quieta, meiga e busca o amor verdadeiro desde o início. Que encanto ser charmosa e dengosa e, como é bonito se imaginar apaixonada como ela. Mas a empatia dura até certo ponto, quando queremos emancipação e caímos em Miranda, advogada de look moderno. Ela é culta e charmosa, mas é medrosa demais para os relacionamentos duradouros. Então tentamos a Carrie que é a síntese das mulher moderna: magra, rica (o rico moderno, o aristocrata está fora de moda), independente. E esta a procura de amor desesperadamente mas não encontra. Aí ela fica chata com aquela história de Mr. Big para lá e para cá e dá vontade de dar o telefone de um terapeuta para ela. Por isso corremos para a Samantha que é a sexóloga da galera, ousada e esnobe. Essa aí irrita a gente rapidinho, não a toa arrumaram um câncer para dar algum drama na vida da pessoa. Cada uma serve perfeitamente para as crises de identidade femininas e ao mesmo tempo, para as nossas mil vontades de ser aquilo tudo na hora e na medida certas.)

4 comentários:

Igordinho disse...

1- voce precisa de ferias
2- Eu nao quero casar...
3- nao quero casar, porque nao quero discutir preco da carne! ehehehe...
4- Belo texto
5- Partiu farani..encher a cara!

obs: seu filho nao fica vendo desenho as 2 da manha.,..vamos ser francos....ele ve outras coisas e quando vc aparece ele coloca no desenho! ahhahahaha

Beijocas...Fala pro rafa que o sentimento nao pode parar....EU sei que ta dificil...mas vamos ai!

Anônimo disse...

Dani,

A sua visão madura e enternecedora me tocou. E até me deu vontade de pegar o primeiro avião para o Brasil, pois em seu artigo encontrei algo cada vez mais raro e, por isso, precisoso: alma, graça, sensibilidade — o sabor da vida.

Escrever é sempre um ato que nos obriga à reflexão e, por sua essência, ao crescimento pessoal.

Espero poder ler muito mais artigos seus. Foi uma surpresa ver que já existem tantos!

Grandes abraços!

Maria

Unknown disse...

1 - Avisa o Michael J. Fox q eu, Igor e ele estamos juntos com o Vascão.
2 - Bom texto, não consigo escrever textos longos assim! Só consigo escrevrr curtos (na minha concepção)
3 - Quero casar com uns 30 anos, namoro há 4, sem trair, é um bom estágio pro casamento, acredito, rs.
4 - Sex and the city é maneiro
5 - Tu sempre foi a intelectual da nossa galerinha :D (é um elogio)
6 - Que a Força esteja com vc.

Daniela Ricotta disse...

Onde já se viu? Eu mando meu blog para meus amigos e os recados são para o meu marido. ahahah

Amigão querido: eu estou sim, precisando de férias. Mas não tem nada a ver com isso.. Ainda sou uma romantica e, segundo nosso amigo, Jedi, a intelectual da galera (dá onde vc tirou isso, criatura?)

Saudades dos dois!!! Continuem me lendo e me escrevendo, please.