“O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou...” Este, dentre milhões de bonitos pedaços de músicas e textos, é disparado o que mais repito na minha vida. De tempo em tempo, quando tenho crise de consciência me pego surpresa, olhando em volta e procurando alguém tão absolutamente perplexo quanto eu, qualquer sinal de que eu não sou apenas uma chata reclamona mas alguém que procura ver a vida com justiça e que não suporta admitir que o mundo não é o que deveria ser por direito. Porque não seria se as pessoas que o fazem entendessem que não é preciso se adequar a ele sempre, que as vezes ele pode sim, se adequar a você, porque não? É como o menino que joga a latinha de coca cola na rua ao andar de bicicleta mesmo tendo passado por uma lixeira há meio minuto atrás. Quando ele crescer vai chover bem forte um dia, as ruas vão se alagar, o trânsito vai parar, vai entrar água no carro dele e ele vai perder um negócio por não chegar a tempo em uma reunião. “A infraestrutura dessa cidade é uma merda!” É? O que mais é uma merda para você? Como anda a sua memória? Porque os fatos tomam as proporções catastróficas inimagináveis, porque você consegue se adaptar tão bem depois de uma crise horrorosa de humilhação e de falta de incentivo?
Uma luz no fim do meu túnelzinho particular se acendeu essa semana e eu descobri que ele é todo pichado. Eu achava que ele era feito de ladrilhos, como na música de criança. O que aconteceu foi que as pedrinhas prenderam meu salto 15 e ele se quebrou e eu tive que continuar manca, olhando todo aquele lixo e me perguntando porque mesmo eu conseguia achar aquilo bonito? Era medo de ver a feiúra? Era medo de que alguém visse a minha feiúra? Ou era medo de, por um segundo, deixar de ser preguiçosa, pegar uma merda de uma tinta branca, atirar nas paredes e atacar de gentileza? Pouca gente sabe quem foi Gentileza. Ele morreu velho, barbudo, pobre e, até onde eu sei, sozinho e foi imortalizado nas paredes do Rio de Janeiro (as que não foram pintadas de cinza ou pichadas depois) e na voz da Marisa Monte. Eu não tenho a menor idéia se ele foi feliz ou não, mas tenho a certeza de que ele fazia algo que muito amava.
A partir daí, me pergunto:Cada pessoa deve ter a medida dentro de si para saber o que realmente importa para si? Ou isso é utópico, as pessoas são mesmo ordinárias e alguns poucos extra fazem essa diferença no mundo?
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